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PROCESSO DE PRODUÇÃO DO VÍDEO “VIVENDO DE ROCK NO ESPÍRITO SANTO” |
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O vídeo documentário Vivendo de Rock no Espírito Santo é parte integrante do projeto de pesquisa do trabalho de conclusão de curso de publicidade e propaganda, que pretende se consolidar enquanto discurso de uma construção social acerca da cena underground capixaba. O vídeo segue uma abordagem diferente das já utilizadas em obras do gênero para este segmento, fugindo no nostálgico e do resgate, e partindo abrangência de contextos ainda não explorados: os das pessoas que vivem ou tentam sobreviver profissionalmente de rock - mais especificamente o punk/hardcore - no estado do Espírito Santo.
A partir dessa abordagem foram selecionadas pessoas de vários segmentos dentro da cena punk/hardcore capixaba para exemplificar essa “janela para realidade” proposta pelo cinema verdade, vertente do modo participativo como definiu Bill Nichols, onde o documentário é dotado de entrevistas, registro in loco, câmera na mão ou estática, enquadramento de primeiro plano podendo notar um forte engajamento do diretor com o assunto abordado.
Dentre os entrevistados encontram-se os representantes de bandas com maior expressividade no cenário nacional e internacional. A primeira delas é a banda Mukeka Di Rato, representada pelo baixista Mozine. Com 12 anos de estrada, 5 discos lançados, participações em inúmeras coletâneas, apresentação em todo o Brasil e até na terra do sol nascente, o Mukeka conseguiu no ano passado o feito já alcançado pelo Dead Fish: Um contrato com uma major (grande gravadora), a Deck Disk. Na entrevista, Mozine afirma a dificuldade de viver de música de uma forma geral: “No exato momento por mais que a gente esteja numa gravadora grande, se a gente largasse o trabalho pra viver de banda a gente tava fudido”. A outra banda entrevistada, Dead Fish, com 14 anos de estrada e desde 2004 na linha de frente da Deck Disk, é considerada uma das grandes bandas de hardcore no cenário nacional. Com clipes premiados na MTV e turnês internacionais, o Dead Fish é a maior referência para bandas de dentro e de fora do estado. Em entrevista realizada no playground do prédio de sua mãe, o vocalista Rodrigo contou detalhes sobre a assinatura do contrato com a Deck: “Cheguei na Deck, eles botaram o contrato na mesa, ‘é isso aqui que a gente tem pra oferecer pra vocês’, e esse dia foi um dia limite na minha vida, eu disse assim ‘eu não quero, mas eu vou levar pra avaliar com os meninos em Vitória, essa porcentagem que você está oferecendo aqui pra mim é ridícula, eu sempre tive tudo na minha mão’, e eles diziam ‘não, mas agora você vai ter uma distribuição uma exposição maior’, aquele papo de gravadora, Só que eles cumpriram, inclusive a porcentagem que a gente pediu pra eles aumentarem”. O segmento dos realizadores está representado nas figuras das ex-casas de shows Entre Amigos 2 com seu dono Zequinha e seu filho Fabrício Colodetti. Aberto para shows de rock em 2002, o Entre Amigos 2 se tornou uma referência em shows undergrounds durante seus quatro anos de funcionamento, a despedida, em dezembro de 2006, levou mais de 800 pessoas ao bar e provocou uma ruptura na cena atual. Sem locais para realização de shows, bandas se extinguiram e o cenário ficou enfraquecido. Zequinha comenta em um trecho da entrevista que gostava mais do público de rock do que os outros que ele tinha como pagode e funk. “Eles são mais unidos né?!”, comenta Zequinha. Em outro ponto da entrevista Zequinha comenta que uma das dificuldades de se ter uma casa de shows de rock era que o público era muito mal visto. Fabrício complementa, “negócio de menores em show era problema, e a entrada também, a galera gosta de pagar barato e a gente tem muita despesa”.
Outra antiga casa de shows que também foi procurada foi o antigo Gueto, representada pelo seu fundador Fabrício Nativo. O Gueto foi referência na primeira fase do hardcore capixaba, em meados da década de 90. Seu fechamento em 2000 provocou o mesmo esfriamento já citado como efeito do fechamento do Entre Amigos, e a descoberta do mesmo como nova casa de shows. Fabrício foi entrevistado na Barra do Jucu, local onde também funcionava a casa - na verdade a garagem de sua residência adaptada para shows - e contou, entre outras coisas, que o Gueto nasceu da necessidade que ele e os amigos tinham de se expressarem. Sobre viver de rock no Espírito Santo o músico comentou “Claro que é possível, eu fazia muito dinheiro ali, pra mim aquilo era o suficiente”. A entrevista de Fabrício Nativo foi cortada da versão final do documentário por possuir um ritmo diferente das demais. Porém as cenas captadas podem ser conferidas no site de vídeos www.youtube.com junto com as demais cenas não aproveitadas no vídeo.
O produtor de shows Allan Kardec responsável pela Broken Bones Produções deu uma das entrevistas mais esclarecedoras sobre a cena. Organizando shows na Grande Vitória desde 2002, a Broken Bones já trouxe nomes importantes do hardcore nacional e internacional como Dead Fish, Ignite, Igegno, Discarga entre outros. Em entrevista Allan comenta que a maneira de fazer shows da produtora começou pela ânsia que tinha de fazer algo pela cena, “a Broken Bones é ‘faça você mesmo’, independente, não fazemos shows de mainstream, fazemos shows pra trazer as bandas dos nossos amigos, as bandas que gostamos”. Em outro trecho Allan comenta que a cooperação dos amigos é fundamental “é tudo feito na base da camaradagem, sempre tem gente que nos apóia voluntariamente”. Mas ao final se mostra cético quanto a viver de rock no Espírito Santo, “as pessoas que podem fazer alguma coisa não fazem porque elas não precisam do rock pra viver”, finaliza.
A Tarkus Discos, tradicional loja de CD’s, representada pelo seu fundador Betão, há mais de 25 anos no mercado é referência em discos e CD’s undergrounds. Betão afirma que acompanhou o crescimento de vários clientes que chegaram à sua loja adolescentes e hoje freqüentam com seus filhos.
O irreverente selo capixaba Laja Records na figura de seu dono Fábio Mozine, foi selecionado por ser o mais antigo em atividade e pelo casting que inclui bandas de dentro e de fora do estado. Em entrevista Mozine comentou que um selo independente funciona na cara e na coragem, que a tecnologia presente hoje ajuda como internet e ligações interurbanas mais baratas facilitam o trabalho e ao mesmo tempo atrapalham já que a MP3 é hoje o maior inimigo do CD, “lançar mil CDs de uma banda hoje é suicídio, principalmente se for uma banda nova”. Mozine ainda revela que prefere lançar seus próprios projetos além das bandas de seus amigos e quando questiona se sentia uma pressão pra lançar banda local ele responde enfaticamente “eu não me sinto na obrigação de lançar nenhuma banda capixaba”.
O Pankada, programa da Rádio Cidade direcionado ao estilo punk/hardcore, no ar há seis anos, foi representado por seus apresentadores e idealizadores Cyssu e Luciano. Na entrevista os apresentadores revelaram que o Pankada é o programa de maior audiência da rádio, perdendo somente para as populares Litoral FM e Tropical FM, um dado curioso se tratando de um programa tão segmentado e pelo horário que o programa é veiculado, de 22:00 às 0:00 horas. Quando questionados se é possível viver de rock no Espírito Santo, Cyssu comenta, “viver de rock é utópico, o dinheiro não vem pra minoria, eu tenho o Pankada como um hobby”.
Estúdios de gravação e de ensaios também foram entrevistados. O primeiro deles, Estúdio Dourados, representado pelo técnico de som Marcello Índio, responsável pela gravação das principais bandas capixabas - inclusive as undergrounds. Na entrevista que ocorreu num estúdio no bairro de andorinhas em Vitória, já que o Dourados encontra-se em reforma, Índio falou sobre o que as bandas buscam nas gravações, “o mais próximo possível das bandas que elas são fãs”. Sobre a possibilidade de se viver de rock no Espírito Santo Índio comenta, “Esse é o conselho que eu dou pra todo mundo: Não espere isso. Tentar viver de música no Brasil é que nem exportar café pra Tailândia ou jogar bola do Uzbequistão. Rock aqui é difícil”. Já Daivison, que tem um estúdio de ensaio em Vila Velha é mais otimista, “Eu acredito que sim (é possível). É complicada a profissão de músico, é difícil, mas é muito prazeroso”. Daivison contou que montou o estúdio em sua casa por não ter lugar pra ensaiar com sua própria banda e viu com um tempo que isso era uma necessidade do cenário. Comentou também sobre a baixa procura em função do fim do Entre Amigos 2, “na época do Entre Amigos que funcionava com festivais de rock de sexta à segunda, a procura era muito grande. Como o Entre Amigos fechou e as portas de outros lugares fecharam também, diminuiu bastante o número de bandas”.
As Mães do Hardcore também foram procuradas para darem seus depoimentos. Dona Izaura, mãe do baixista Fábio Mozine, contou que percebeu que o filho começou a se interessar por rock quando ele passou a ouvir muito Raul Seixas, “até que um dia eles me deixaram ver um show na Barra do Jucu, eu fiquei desesperada, depois eu fui me acostumando”, comenta. Ela não acredita na possibilidade de viver de rock no Espírito Santo, “sinceramente eu acho que não (é possível). Porque todos eles têm uma estrutura né?”, a mesma opinião é compartilhada por Dona Rosa, mãe do produtor Allan Kardec, “aqui é muito difícil, porque eles não têm apoio das autoridades, das pessoas ligadas à música”.
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